Relação entre doença periodontal e doenças cardiovasculares

As Doenças Periodontais são doenças infecto-inflamatórias que afetam os dentes e estruturas circunvizinhas. Essas doenças ocorrem quando um desafio microbiano gera um desequilíbrio no processo saúde-doença, superpondo-se à resposta imuno-inflamatória do hospedeiro. Esse desafio pode ser supragengival, nas gengivites (Loe, Theilade et al., 1965), e subgengival nas periodontites (Lindhe, Hamp et al., 1975).

Nas últimas décadas, inúmeros estudos têm sido conduzidos com o intuito de avaliar o impacto das doenças periodontais em condições sistêmicas, principalmente, doenças cardiovasculares, diabetes e eventos adversos da gestação. Estes estudos surgiram com a emergência de um ramo dentro da Periodontia chamado “Periodontia Médica” (Williams e Offenbacher, 2000), sendo iniciados à partir de estudos observacionais em pacientes com infarto agudo do miocárdio (Mattila, Nieminen et al., 1989).

No que se refere à associação entre Doenças Periodontais e Doenças Cardiovasculares, as evidências evoluíram, através da condução de estudos transversais, longitudinais e de intervenção (D’aiuto, Ready et al., 2004; Tonetti, Claffey et al., 2005; Tonetti, D’aiuto et al., 2007) os quais têm mostrado que a associação entre as duas doenças pode ser explicada pela liberação de marcadores inflamatórios na corrente sanguínea em decorrência da infecção periodontal ou pela migração de bactérias periodontopatogênicas do biofilme bucal para a corrente sanguínea (Chiu, 1999). Porém, muitas questões continuam em aberto no que se refere à causalidade desta associação (Blaizot, Vergnes et al., 2009; Friedewald, Kornman et al., 2009) e, as respostas necessitam ser buscadas para que se faça um trabalho em conjunto entre dentistas e cardiologistas na prevenção de eventos cardíacos (Genco e Van Dyke, 2010).

Ademais, no Brasil pouco se tem estudado sobre a associação entre Doenças Periodontais e Doenças Cardiovasculares, através da avaliação de biomarcadores inflamatórios, perfil lipídico e glicêmico. Com esse objetivo, a Dra Manuela Flores Coimbra, em sua dissertação de mestrado realizou um estudo comparando esses biomarcadores, o perfil lipídico e glicêmico com a condição periodontal em pacientes que já haviam passado por algum evento cardiovascular.

Esse estudo foi publicado no Journal of Periodontology em 2014 com o título de “Periodontal status affects C-reactive protein and lipids in patients with stable heart disease from a tertiary care cardiovascular clinic” e fez parte de um grande projeto denominado “Estudos da relação entre doença periodontal e doenças cardiovasculares”. Nessa fase inicial, foi encontrada uma associação significativa entre inflamação periodontal atual e destruição tecidual com marcadores inflamatórios cardiovasculares, como a proteína C reativa e também com o perfil lipídico.

 Os resultados deste estudo confirmam a hipótese de associação entre condição periodontal e parâmetros sanguíneos cardiovasculares. Porém, enquanto as evidências não confirmarem a doença periodontal como um efetivo fator de risco, recomendam-se abordagens de fatores de risco em comum para que se possa atingir, da melhor maneira possível a saúde das populações.

Conclui-se então a importância de uma abordagem multidisciplinar para os pacientes periodontais o que torna a Periodontia uma das especialidades mais fascinantes para o cirurgião dentista.

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